quinta-feira, 29 de setembro de 2011

A VIDA NA FRONTEIRA: INTRODUÇÃO (Border life: introduction)



A fotossérie "A Vida na Fronteira" é um trabalho fotográfico amador que produzimos (falo em primeira pessoa do plural em função de todo o apoio fornecido por meus pais em relação ao "meu" trabalho) para tentar concretizar a função social da Fotografia e do fotógrafo; mostrar aquilo que deve ser mostrado. Em se tratando da fronteira, causar no observador e no componente da imagem o que parece tanto faltar neste lugar: um mínimo de reação.
Nesta galeria, tentou-se captar aspectos da vida cotidiana de uma camada social expressiva da tríplice fronteira mais populosa da América do Sul, Foz do Iguaçu-Ciudad del Este-Puerto Iguazú - ainda que o destaque seja dado para a fronteira Ciudad del Este-Foz do Iguaçu. A região é ostentada pelas suas belezas naturais e pelo potencial de construção que o homem tem, leia-se a Usina Hidrelétrica de Itaipu. No entanto, graves problemas sociais não ocupam as fotografias tiradas pelos turistas neste lugar, justamente elementos que, além das Cataratas do Iguaçu, o caracterizam muito bem, como, por exemplo, o trabalho infantil.
Sobre aqueles que por esta localidade passam e parecem não ver que algo precisa ser denunciado e, por consequência, modificado, pode-se dizer que é a indiferença dessas pessoas que desfrutam do que há de belo e não se importam com o que "não lhes concerne"? Ou é a alienação que infiltra as mentes dos visitantes, os impedindo de perceber a situação e se engajar?
Vale lembrar que a fronteira não é de todo negativa e alguns pontos positivos também serão levados em conta.

The photoseries "A Vida na Fronteira (The Border Life)" is an amateur photographic material produced by me and my parents (they helped giving support to me, driving me to the places I indicated). This was done in order to materialize the photographer and Photography´s fonction in the society; to show what deserves and has to be showed. In the border, it means to cause a reaction in the observer and in the characters that make part of the photography. Reaction is something that really lacks in that place.
In this photogallery, we have tried to get usual habits and aspects from a social layer so expressive in the most populous frontier from South America. That is the one compound by Foz do Iguaçu, Ciudad del Este and Puerto Iguazú. The region is shown by its natural beauties (Iguassu Falls) and by the men power of building and changing the environment so that it can follow their interests (Itaipu Dam). However, grave problems ravage this region, some elements that are so characteristics as its beauties are, like child work.
Many tourists come to this border, taking advantages from many aspects the place offers, like slow costs and an easy luxury to get access to. Nevertheless, they seem to not see the problematic illnesses the triple Border suffers of. Illnesses that need to be denounced so that all the Brazilian and the world society can see. Could it be the indifference the cause of tourists and "foreign people" "not seeing" those aspects, aspects that don´t have to do with them? Or could it be the alienation the element that governs their minds so that they don´t realize what is in front of their eyes, preventing them to act?
The frontier is not only made by negative aspects and the positive ones will be mentioned to.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

MUROS SOCIAIS: SUJEIRAS PARA DEBAIXO DO TAPETE E DO CINISMO

No televisivo "Café Filosófico", a bailarina Dani Lima defendeu a ideia de que o espaço é a materialização da forma como os indivíduos percebem o mundo. Os muros validam essa formulação quando mostram a concepção de divisão social que está internalizada na mente dos que dividem e dos que são divididos, algo tido como ideal.
Dizer que a divisão social é uma fatalidade, algo que sempre ocorreu e ocorrerá é uma verdadeira ideologia que esconde o fato de que foi o homem quem construiu esse fator da sociedade. Muros como os dad fronteira mexicano-estadounidense ou dos enclaves fortificados ou mais conhecidos como "condomínios de luxo" foram feitos por humanos a mando de alguém ou de "alguéns".
Esses "alguéns" arquitetaram isto por considerá-lo como ideal. Afinal, para Jean-Paul Sartre, os indivíduos tomam atitudes construindo um perfil que onsideram como ideal, fazendo aquilo ue acham, mesmo implicitamente, que qualquer ser humano deveria fazer em seu lugar.
No caso dos muros, a "idealidade" reside no se isolar dos problemas sociais, da violência "lá fora" e, dentre outros fatores, da resolução dos problemas considerados "dos outros", como a marginalização urbano-espacial. Esse quadro é mais evidente com os "condomínios de luxo".
Esse panorama mostra nada mais e nada menos do que um apostura de comodismo à sua zona de conforto, principalmente em se tratando das elites. De fato, a construção de um muro na fronteira da Cisjordânia com Israel "reduziu" o número de de ataques por homens-bomba no lado israelense. Entretanto, a oposição a ele alega que ele concretiza a segregação social e incitá-la ainda mais ao ódio.
Mudando a disposição espacial, a forma de perceber dos indivíduos é forçada a ser alterada. Proibir a construção de muros é uma forma de fazer com que as pessoas da elite se vejam afetadas e obrigadas a um engajamento social, lutando por seus interesses, os quais, no fundo, são os de todos, como, por exemplo, a paz.

sábado, 17 de setembro de 2011

COM O PESSIMISMO, A GRAÇA DE VIVER





Nas décadas que precederam a Revolução Francesa, a crença máxima na Razão como elemento que resolveria os problemas do indivíduo e da sociedade se tornara uma lei na intelectualidade. Essa maneira de ve-la foi uma tendencia que foi gradativamente aguçada com o passar do tempo e do desenvolvimento científico. Mas, no final do século XIX, com a Paz Armada, e primeira metade do século XX, através das duas guerras mundiais, o homem destruiu esse cenário de otimismo, revelando ao mundo que o que determinaria o destino da humanidade não seria o conhecimento e sim o que se faria dele. Foi nessa atmosfera que o Pessimismo atingiu seu ápice e tentar, diante de toda essa realidade, ver o mundo com outros olhos se tornaria um exercício de muita abstração.


Essa forma de ver a realidade continua encontrando muitos argumentos válidos para sua sustentação, como os ataques de 11 de setembro; o possuir armamento nuclear como método de ameaçar outras nações para subordiná-las a seus interesses (uma mostra da vulnerabilidade das relações diplomáticas, levando sempre em conta a impossibilidade de resolução diplomática das divergencias de interesses); uma nova Paz Armada (o Irã que enriquece uranio com o objetivo de varrer Israel do mapa); os islamicos do Al Shebab, que barram a ajuda humanitária que chega até a Somália, enquanto somalis morrem às dezenas e dezenas todos os dias por consequencias da desnutrição; autoridades políticas que sustentam esquemas de tráfico de drogas, prostituição e corrupção; regiões cujo fornecimento de água é "esquecido" - como mostrado no interior do Nordeste, pelo Jornal Nacional da última sexta-feira. No caso da Guerra do Iraque, Estados Unidos atestam para o risco à segurança mundial da existencia de armas nucleares no Iraque, a ONU nega, inspecionando exaustivamente o lugar. Nada é encontrado. Mesmo assim, os EUA priorizam a defesa da "segurança mundial" e invadem a região. Ve-se na ONU um papel de justiça, como aquela que tentou seguir os princípios de criação da ONU. Na verdade, o Iraque vendia petróleo à França, Alemanha e Inglaterra por preços mais baixos e tinha acordos comerciais com estes. Então, cai por terra a defesa da integridade dos princípios das Nações "Unidas". Frente a essa situação, tem-se a ideia de que a verdade é que todos agem por interesse economico e que tudo se compõe essencialmente de fatores negativos.

Nomes de peso como Arthur Schopenhauer e os pensadores da Escola de Frankfurt tendiam a ver a realidade desse modo. Para Schopenhauer, o sentido da vida, por exemplo, não existia, o que, no ser humano, geraria uma angústia, a qual se prolongaria por toda a vida, desencadeando o que hoje é chamado de Depressão. O homem passaria buscando um algo que nunca encontraria. Frankfurt via a mercantilização da cultura como um meio de alienação e disseminação de ideologias, uma visão da realidade tendo ela como tirana, pois um grupo esconderia uma verdade de uma massa, constituindo-se sociologicamente a lacuna, no intuito de convence-la a modificar sua vida em função dos interesses desse grupo, uma extensão da teoria marxista da realidade (A Ideologia Alemã).


Entretanto, ver o mundo dessa forma é reduzi-lo a apenas uma característica. Essa redução foi o que se tentou fazer no início da Filosofia, com o os chamados filósofos pré-socráticos. Ao "se libertar dos mitos", Tales, Anaximandro, Anaxímenes, Heráclito e outros viam a realidade tão diversificada e pensavam que no princípio deveria existir um algo que dava origem a tudo. Foi assim que Tales atribuiu à água o princípio do todo. Anaximandro; o indeterminado. Anaxímenes; os quatro elementos. Demócrito; o átomo. Do ponto de vista da Ciencia contemporanea, estavam quase todos errados, à exceção de Demócrito e Anaxímenes, que mais se aproximam do saber científico atual. Os dois rumaram para origens abstratas, fora do alcance da percepção humana de até então.

Atribuir um fator negativo a tudo é fazer como os mencionados filósofos realizaram, reduzir. Pode-se dizer que o que eles idealizaram era algo palpável demais, relativamente mais fácil de observar, uma criticidade que dá menos trabalho. No caso da realidade, ver a negatividade compreende uma tarefa mais crítica, que requer ver mais além do que os fatos mostram mais superficialmente. Contudo, ver apenas o negativo significa desprezar o que de positivo existe. E, então, vem a pergunta: existe o positivo?

Se for considerado que a realidade é uma só e funciona relativamente da mesma forma, seja no ambito natural quanto no humano, existem os dois elementos. Uma reação química dificilmente acontece numa direção só. Ela geralmente é reversível e, mais do que isso, encontra-se em equilíbrio dinamico, acontecendo, portanto, nos dois sentidos, havendo tanto reagentes, quanto produtos no mesmo espaço. Se feito um paralelo entre os elementos positivos e negativos da vida humana e suas relações sociais e a Química, não é muito diferente. Um indivíduo não é sempre bom. Ele comete atos considerados característicos de uma pessoa ruim, mesmo que por acidente ou intencionalmente, não necessariamente sendo alguém maquiavélico. Um ser humano não diz sempre a verdade. Ele também mente. Se analisada a realidade nesse sentido, tudo está presente em tudo. O mau existe no bom, que existe no mau, que existe numa transição entre os dois, constituindo um terceiro modo. Então, simplificada e matematicamente falando, escolher apenas um deles para caracterizar o todo, é excluir 66,6% do total, o que mostra que a realidade é bem mais do que se escolheu.

Pode-se dizer que, de fato existe o positivo, mas que, segundo a observação da experiencia de vida, tudo tende para o negativo. De qualquer forma, está-se atribuindo uma característica única à realidade (os pré-socráticos, ao tentar faze-lo, falharam), sendo que ela é complexa e ampla, envolvendo vários elementos, como um Equilíbrio Químico. No caso das relações humanas, não levar o que há de positivo em conta, por mais ínfimo que seja, é, de certo modo, desestimulá-lo, ensinando-se (mesmo que implicitamente - o que geralmente ocorre) que aquilo que receberá atenção é sempre o negativo.


Além do mais, o indivíduo corre o risco de internalizar esse princípio, caindo num longo tédio, até mesmo existencial, como dos escritores do "Mal do Século", a segunda fase do Romantismo brasileiro. E é neste ponto que mora o perigo; se ele não está bem consigo, o que é que vai oferecer à sociedade? Habituar-se ao negativo pode levar à inércia social, isto é, ao não fazer nada para mudar a ordem vigente, tendo como justificativa que tudo sempre foi ruim por natureza e sempre será.


Primeiro de tudo, se a postura não faz bem ao indivíduo, o que inviabiliza sua melhor contribuição social, ele deve mudá-la, fazer um esforço para enxergar outras perspectivas. Elas existem. Se ela não inviabiliza a contribuição social, provavelmente é um indício de que está bem dosada. Afinal, realmente tudo pende para um lado, por mais que não caia totalmente neste. No Equilíbrio Químico, em geral, há uma maior quantidade de reagentes ou de produtos, por mais que os dois estejam presentes. Quando ao magnetismo da Terra, diz-se que ela é levemente mais negativa do que positiva, por mais que haja uma enorme quantidade de cargas positivas.

Outro fator a ser levado em conta é que a ideia de que tudo é ruim e sempre será pode ser uma ideologia com o intuito de desestimular os indivíduos a tentarem mudar a disposição da realidade. Cabe ao ser a análise dessa e de outras múltiplas possibilidades. O filósofo Karl Popper sugere em sua Teoria do Conhecimento que o indivíduo ao tentar confirmar uma teoria, deve começar tentando encontrar argumentos que a refutem.

Quanto à inanição, o próprio Schopenhauer enuncia que por mais que a vida seja desprovida de sentido, a pessoa deve ser ética, isto é, fazer o esforço para fazer o bem pela sociedade. Vem a dúvida: que estímulo se tem para fazer o bem quando não se reconhece adequadamente o esforço? Vem a réplica: O que é que se espera ao fazer o bem?


Aquele que se preocupar se a sua visão está mais distante ou próxima da realidade deve levar em conta o conceito de "Coisa Para Nós" do filósofo Emanuel Kant. Para ele, a realidade em si, o numenon, jamais pode ser conhecida, pois extrapola os limites da compreensão humana e de sua experiencia e a razão está limitada ao que a experiencia pode oferecer. A mente do homem seria como um sistema digestório. Tudo que vem de fora para dentro será "digerido" de acordo com as experiencias vividas pela pessoa e sua personalidade, o que não corresponde à totalidade do que existe fora dela. Em uma passagem de "A Cidade e as Serras" ve-se a notável influencia do estilo de vida e da história da pessoa na sua forma de ver o mundo, confirmando o teorizado por Kant: "(...) o bom Schopenhauer formula todo o seu schopenhauerismo, quando é um filósofo sem editor, e um professor sem discípulos (...)". Os escritores da segunda-geração do Romantismo, os do "Mal do Século" tinham vidas fracassadas, vide o que escreveram. O mesmo vale para o otimista compreender até que ponto sua experiencia está obstruindo sua forma de enxergar o todo.


É um fato que a visão que se tem de mundo está fortemente atrelada à experiencia de vida. De qualquer forma, é obrigação do indivíduo analisar no que essa experiencia influencia na sua forma de perceber o total, até onde ela inviabiliza uma percepção mais ampla, que pessoas com outras experiencias foram capazes de perceber. No meio de toda essa busca, Nietzche intervem, perguntando: para que a verdade? Há múltiplas tentativas de resposta. Talvez realmente seja "a verdade" um meio de preencher um vazio provocado pela ausencia de sentido da vida... Ou quiçá, não seja nem ela o preenchimento e, sim, o caminho de chegada até ela. Ela é apenas um momento, um ponto entre a síntese e uma nova tese. É no trajeto que se encontra o fluxo... Que se encontram as transformações da vida. Aderir a ele, é nada mais, portanto, do que simplesmente viver.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

QUANDO UM DIPLOMA PENSA POR MIM






A obra "Triste Fim de Policarpo Quaresma" traz uma arraigada crítica ao Academicismo, prática tão consolidada na sociedade brasileira. Dentro dessa, o poder do conhecimento está nas mãos daquele que é dotado de um título; o próprio diploma. Nas salas de aula, essa postura é evidente, revelando um péssimo "hábito" dos estudantes e, em determinados casos, até mesmo de professores. Isto provavelmente gerará péssimas consequencias para a vida do aluno e da sociedade como um todo.


Em "Policarpo", o personagem que dá título à obra tenta, na primeira parte do livro, entender a realidade brasileira através dos livros, o que vem a fazer com que ele receba críticas por parte da vizinhança pelo fato de esta crer que só pode possuir livros aquele que tem um status acadêmico. É uma realidade que se mostra clara nas escolas. Observa-se que, muitas vezes, as ideias de um aluno são triplamente questionadas pelos alunos do que aquelas apresentadas por um professor. Em muitas discussões entre estudantes sobre as respostas corretas das provas realizadas, anteriores à divulgação de gabaritos, os argumentos apresentados pelo autor deste texto, por mais lógicos que pudessem ser, muitas vezes, eram vistos ainda com uma leve desconfiança, pois sempre se pensa no aluno como alguém que "sabe menos". Ou, em variados casos, nem se presta muita atenção à constituição deles (dos argumentos), já que "o que vale mesmo é a palavra do professor".


Uma vez, o autor deste texto tentava explicar a uma companheira de classe porque a resposta dela não poderia estar certa. A discussão foi longa e ela relutava em aceitar a explicação, apresentando contra-argumentos que não tinham muita conexão em relação ao que ele apresentava, até ignorando o ele que defendia. Ela parecia estar mais interessada em provar que aquilo que ela marcou era o correto, não se atendo à validade do que lhe era apresentado. Entrentanto, provavelmente, se a professora da matéria, ao corrigir a prova, dissesse o mesmo que o aluno dissera, com as mesmas palavras, ela não replicaria uma palavra sequer, como o que efetivamente ocorre na maioria das vezes.


Em outra ocasião, ainda o autor deste texto socializava em sala uma análise de teor psicológico das ações. O professor se voltou para ele e disse: deixa eu te fazer uma pergunta; você lê livros de autoajuda? (causando risos em classe). E, então vem o questionamento: por que primeiramente se pensa que um pensamento "inovador" vindo de um aluno tenha que ser oriundo de algum outro lugar? O aluno não pode pensar por si só analisando as experiências de vida observadas? Ou ainda: por que o que ele pensa não pode vir de um material consistente? Querendo ou não, ou preconceito escapou e se manifestou na pergunta daquele professor.


Nos exemplos abordados, sempre se põe o aluno (desprovido de um título acadêmico) em uma posição inferior à do professor. É evidente que no caso da estudante mencionada, há outros fatores que explicam seu comportamento. Contudo, o orgulho possivelmente é o que essencialmente embasa o pensamento que justifica essa aquela forma de se comportar: como posso aceitar que um aluno possa dizer o que é certo ou o que é errado?


Se levado em conta que a maneira como o espaço está organizado é justamente a percepção de mundo que os indivíduos tem, vê-se na própria postura física das salas de aula a ideologia discutida neste texto. As cadeiras, enfileiradas, estão todas sob uma mesma altura - os estudantes, estão todos no mesmo nível. Àcima dessa altura, de pé - o professor olha de cima para baixo, onde estão os alunos, e os alunos, debaixo (onde estão) para cima, onde está o mestre, na frente de todos. Essa disposição espacial até dificulta que um aluno que esteja na parte traseira do ambiente seja visualizado ao apresentar uma ideia. Ou seja, a manifestação fica espacialmente comprometida.


Essa situação não deixa de ser uma herança dos tempos de ditadura. Afinal, os termos da educação (grade curricular, disciplinas, leitura obrigatória), a forma como estão organizadas as cadeiras e mesas (sistema militar) remontam a esse episódio da História que deixa marcas na atualidade.


A inquestionabilidade está imersa nas formas de convivência de um grupo militar; o dito pelo tenente é e pronto - o que pode ser até uma confusão entre respeito e submissão. Além do mais, matérias como Filosofia e Sociologia, âmbitos em que se costuma questionar os tipos de governo, foram retiradas do curríiculo, acostumando os alunos ao não questionamento. Estes, imersos na educação tecnicista, isto é, aquela que visava formar gente para o mercado de trabalho, tinham que memorizar detalhes como, por exemplo, o nome dos pontos mais altos do Brasil, ou os mais extremos em termos de norte-sul e leste-oeste, de modo a não articular o conhecimento absorvido.


Isso gerou muitas pessoas não donas de seu próprio pensamento. Não deviam questionar nada, afinal, a verdade estava com o governo militar e este sabia o que era melhor para todos - um discurso repleto dos fatores que constituem a ideologia (lacuna, inversão, universalização, abstração e naturalização). Foram essas pessoas que deram origem e criaram a geração atual de jovens, com base nos valores que aprenderam.


A própria história do pensamento como um todo no Brasil reforça essa ideia; a criação de uma faculdade no Brasil aconteceu apenas com a chegada da família real portuguesa, em 1808. Enquanto isso, a UNAM (Universidad Autónoma de México), fora construída em 1551. Isso inviabilizava a construção de um pensar dono do seu próprio pensamento na nação brasileira.


No século XIX, a preguiça como característica principal do brasileiro era um consenso entre todos os viajantes que por aqui passavam na época. Esse modo de ser abarca inclusive o de articular o pensamento, o que requer uma postura ativa, uma atividade, o que, geralmente, os preguiçosos detestam.


Esse quadro acabou criando pessoas passivas diante do conhecimento e, portanto, das situações adversas. Uma professora espanhola uma vez caracterizou ao autor deste texto o perfil do brasileiro como "diplomático por natureza", nas palavras dela. Debater e questionar são tarefas que envolvem divergências, desconstruções e, portanto, um conflito. Como o brasileiro evita ao máximo o conflito - inicialmente, um povo acostumado a compor a periferia (leia-se a periferia econômica como uma economia complementar à de Portugal) e lidar com as adversidades da vida com base na malandragem*, evitando a briga, ele acaba por tentar sempre se distanciar de tarefas afins. A concepção de por em xeque o argumento de um acadêmico está geralmente atrelado a desprezar tudo que ele pesquisou, elaborou... É entendida até como uma própria objeção à pessoa dele.


Não obstante, por mais influente que seja a história e a construção da cultura nas ações de uma pessoa, os indivíduos também são responsáveis por suas atitudes. Pensar é uma atitude e fica a cargo desses indivíduos tentar exercê-la ou não. Se isto não for feito, a manutenção da ordem vigente será realmente um destino para sempre. Isto é, se não se é dono do próprio pensamento, alguém será... Desse modo, uma massa de manobra sempre será uma realidade; um grupo manipulável de pessoas.


É a postura não questionadora que leva, por exemplo, dentre outros fatores, a anos de repressão governamental, a uma corrupção generalizada, a uma enganação constante, até a uma situação de infelicidade. Todos os aspectos por uma percepção afetada por parte dos indivíduos, os quais acabam se tornando distraídos demais.


É por ela que os brasileiros não são engajados socialmente, logo, são roubados todos os dias e se manifestam a respeito.


Para mudar essa situação é preciso primeiro que se deixe a preguiça tanto mental quanto física de lado, o que requer vontade do indivíduo. Sem vontade, nada feito. O estímulo da sociedade é fundamental, principalmente pela instituição escolar, uma dos mais importantes. No momento reservado para análises, o professor deve lançar mais questionamentos do que verdades, visando a estimular a resposta do aluno, ajudando-o a embasar sua resposta com base na articulação do que ele sabe e do que outros companheiros sabem também e apresentar outras informações que possam descontruir essa ideia, mas nunca antepondo sua visão sobre a ideia em questão de modo a subordinar as respostas dos alunos a ela ou tentar adequá-las a ela... Podendo renovar também seu próprio pensar.


Exames com questões que exijam o pensar um pouco mais, como os da FUVEST, por exemplo, e temas abstratos e provocadores como os da UEL; propagandas televisivas como as do Futura e o hábito de lançar questionamentos aos finais de emissões televisivas são fatos e medidas factíveis que contribuem para a transformação social, pois mudam a percepção dos indivíduos e provavelmente, por consequência, suas ações. Enfim, cabe à cada setor estimular a saída da menoridade enunciada por Imanuel Kant, ou seja, a postura passiva diante do saber e do agir, de modo a motivar a pensar sempre, a não se contentar com o que se sabe. Porém, é preciso frisar que se não houver vontade de sair da caverna, permanecer-se-á nela por muito tempo... Sem ter direito de culpar a ninguém por isso.




*Não se está justificando a postura brasileira diante dos fatos

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

AS VÉRTEBRAS BRASILEIRAS





Em um ano do desmembramento do Pará em discussão e possível fim das ações armadas do ETA na Espanha, volta a discussão sobre os bairrismos existentes no Brasil, principalmente o movimento O "Sul" é o Meu País, do qual discordo plenamente.


A palavra "sul" aparece entre aspas anteriormente para evidenciar ironicamente um mau hábito que se tem de tomar uma parte do sul como se ela constituísse a região como um todo; o Rio Grande do Sul. O bairrismo sulista e sentimento separatista são relacionados majoritariamente com aquele estado brasileiro. Quando se fala em o Sul é o Meu País, "meu" se refere a quem? Paraná e Santa Catarina estão incluídos nesse pronome? Ou ele é uma mostra de uma ideologia por trás de um discurso que visa, na verdade, a supremacia do estado gaúcho sobre os outros sulistas, usando um falso argumento de comunidade sulista para persuadi-la em relação à sua "causa", quando o maior e praticamente único interessado é o próprio Rio Grande do Sul?


Isto é uma especulação, que fique claro, pois me parece muito tendencioso esse discurso bairrista que toma a parte como todo. Se olharmos para o Paraná, um estado mais cosmopolita em relação aos outros sulistas e também de fronteira - o que, de certo modo, rebate a ideia de que o bairrismo é gerado pela fronteira, não há essa questão tão em foco. É justamente nele que se vê a grande invalidade e inviabilidade de uma possível separação do Estado brasileiro. A começar pela forma de viver e pensar do paranaense, principalmente no que toca as cidades de Londrina, Maringá e, de certo modo, Foz do Iguaçu. Não há sentimento de pertencimento a uma terra. A cultura destes locais está mais uniformizada em relação à São Paulo e, por consequência, ao sudeste do Brasil. O sotaque é parecido com o interior de São Paulo - até uma possível herança do período em que o Paraná pertencia ao estado paulista.


A presença de estudantes paulistas que prestam vestibular na UEL e na UEM é maciça. O governo do Paraná exige, por lei, que os vestibulares cobrem 20% das questões de História e Geografia sobre o estado. No entanto, se analisarmos as questões enquadradas nesta condição no último vestibular da Universidade Estadual de Londrina, elas se referem a problemas presentes em qualquer grande metrópole brasileira, apenas mencionando o nome da cidade, mas que, seria facilmente subtituído por Campinas, por exemplo; uma tendência mais universal. Diferente das universidades gaúchas, que, neste caso sim, tentam barrar a entrada de quem provem de outros estados, através de questões extremamente voltadas para o contexto da região.


Sobre o fato de a constituição étnica do sul ser uma realidade à parte da do restante brasileiro, é evidente que há comunidades isoladas, os quistos raciais, compostas, muitas vezes, por alemães ou italianos, como a cidade de Marechal Cândido Rondon. Entretanto, elas são muito pequenas em termo de população absoluta, o que acaba por não caracterizar a população da região como tal.


Pegando um gancho no discurso de que esta região é um lugar culturalmente desintegrado do resto do país, vê-se ainda no norte do Paraná o reforço da inviabilidade da separação em questão. Esta região foi colonizada por NORDESTINOS, MINEIROS e PAULISTAS. E, então, vem-se dizer que há uma realidade cultural distinta? Isso não faz o menor sentido... É a prova histórica de que essa região adotada ideologicamente como isolada do país não o é. Pelo menos não na sua totalidade. Como é que se pode falar em separação, sendo que historicamente essa parte está ligada às outras do país?

A seguir, tem-se no Rio Grande do Sul a maior concentração de praticantes das religiões AFRO-BRASILEIRAS da nação. Novamente; cultura DISTINTA?


A própria presença nordestina foi crucial na construção da Usina Hidrelétrica de Itaipu, pessoas que, depois da construção, desempregadas e longe de suas terras natais, acabaram se fixando em Foz do Iguaçu e contribuindo para a formação do perfil do iguaçuense.


Em vista dos fatores apresentados, vê-se no discurso "O sul é o meu país" um conjunto de ideias ultrapassadas. Além do mais, se tomarmos como elemento de discussão o fato de que a riqueza é gerada pelas empresas e que as empresas com o capital acabam subordinando os governos a seus interesses de modo a configurar a realidade a seu favor, a configuração territorial do país é a mais favorável a elas. Os impostos que teriam que ser pagos pelo sul em relação às outras regiões para as exportações seriam desfavoráveis, caso o separatismo se concretizasse. Há um fluxo intenso entre as capitais. A tecnologia gerada em Recife e em Florianópolis que se entrelaça e se difunde é patrimônio do país.


O Brasil é rico pela MISCELÂNIA cultural que apresenta, um grande prato de sabores e variedades que são resultado da INTERAÇÃO de todos os tipos de ingrediente. Dentro desse quadro, tirar algo e tornar o prato menos especial. Mesmo na questão mais concreta possível, a econômica, trata-se de algo totalmente inviável. Grande parte da população brasileira torce para o BRASIL na Copa do Mundo, nas Olimpíadas. Torce para a Miss Brasil no Miss Universo - independentemente da região de onde ela é (algo até pouco questionado pelos brasileiros)... O Brasil assiste às mesmas novelas, aos mesmos realities show e sobre eles discute no dia seguinte. Ele adere à moda que a televisão transmite. A portoalegrense e a soteropolitana usam as mesmas roupas no verão. É evidente que há subculturas espalhadas por todo o canto, mas há uma cultura maior que as abarca e faz com que um brasileiro se identifique com o seu país e o assuma como seu. O Paraná, um estado "do" sul, não é diferente e se diz brasileiro a qualquer um que perguntá-lo sobre sua origem.

sábado, 20 de agosto de 2011

(CO)DOMINANCIA CULTURAL: HISPANOHABLANTES

Uma das localidades mais chamativas do mundo quando o assunto é integração artística é a América Espanhola, principalmente quando o assunto é música. É um fluxo de cantores e cantoras, atores e atrizes e diversos outros artistas de um país para outro. Encontra-se uma dificuldade grande em determinar a origem dos ritmos musicais, quando estes romperam por total as fronteiras políticas de cada nação e se manifestam como fenômenos transnacionais. O que explica essa singularidade? Por que a cultura brasileira não assumiu esse caráter irradiador como a hispanoamericana? Afinal, o Brasil é superior em tamanho e população absoluta em relação a qualquer país da América Latina... Contudo, não conseguiu estabelecer uma relação nem de dominância cultural tampouco de intercâmbio entre elas e as nações lusófonas.
De bibliografia para bibliografia, os ritmos musicais como a salsa, o merengue, a cumbia, o cha cha cha, e, mais recentemente, o reggaeton, têm cada um origens diferentes (de acordo com a investigação), o que não agrega muito valor, pois todos se manifestam em praticamente toda a América Espanhola. Nas festas do México, de Cuba, da Colômbia e do Paraguai, todos estão presentes. É uma mostra de uniformidade e, ao mesmo tempo, integração cultural, quando se irradiaram de um país para o outro, readaptando o estilo e o devolvendo para o país "de origem" como produto da América.
O Grammy Latino, evento musical de premiação mais renomada no âmbito da música latina, apesar de englobar no nome todos os países latinos, tem quase um monopólio de categorias e artistas relacionados ao mundo hispanohablante.
A cantora espanhola Bebe se apresentou nos últimos anos no México e na Argentina e é esperada por fãs em outros países da América. As mexicanas Julieta Venegas e Paulina Rubio já cantaram várias vezes na Espanha. O fluxo da arte é constante entre essas localidades. A televisão é o grande veículo deste fenômeno, apesar dos exemplos anteriores não serem tão respaldados por ela como o que se mencionará. Artistas como Bárbara Mori (atriz uruguaia), Sebastián Rulli (ator argentino), Angelique Boyer (atriz francesa), Gabriela Spanic (atriz venezuelana), Michelle Vieth (atriz "americana"), Belinda (cantora originalmente espanhola) são todos oriundos de outros países que, não obstante, atuam no México. A trilogia das Marias, protagonizada pela atriz e cantora Thalia - Maria Mercedez, Marimar e Maria do Bairro - foram sucesso em todo o continente e em outras regiões do mundo, sendo exibida em mais de 80 países. Os humorísticos de Roberto Gomes Bolaños, como Chaves e Chapolin Colorado (além de outros sucessos) são conhecidos por todos os americanos. A banda masculina portorriquenha Menudos obteve êxito em toda a América, na década de 90. O exemplo recente mais emblemático é o extinto grupo musical mexicano RBD, que durou de 2004 a 2008, se apresentou em diversos países, caracterizando-se por ser uma febre por todos os países por onde passou e, em função de seu sucesso, cantando no Miss Universo 2007.
Quanto ao intercâmbio lusófono, em programas de auditório portugueses de grande audiência se vê um caso mais restrito de artistas brasileiros como atração da programação. Já no caso dos programas espanhóis, há um fluxo maior dentro da arte hispanoamericana.
É fato que há todo um investimento por trás dessas produções, muitas delas respaldadas pela gigante Televisa, já experiente no mundo das telenovelas e da música a elas atrelada ou não, possibilitando um grau maior de abrangência de suas produções. Neste último caso, há um interesse em financiar até certo ponto a música que sai das telinhas para os palcos da vida real. No caso das redes de TV brasileiras, houve tentativas como os extintos Rouge e Br´oz, lançados pelo SBT através de programas televisivos. Entrentanto, apesar do sucesso nacional, eles não romperam os limites fronteiriços do Brasil, o que provavelmente não vai acontecer com o a agrupação musical oriunda da versão brasileira, produzida pela Rede Record, de Rebelde.
E então vem o questionamento: por que as manifestações artísticas de língua espanhola se irradiam mais do que as brasileiras? Somos tantos - em população e em diversidade de ritmos musicais e manifestações culturais, e, por mais que as produções ficcionais brasileiras sejam de alta qualidade, elas não conseguem se destacar como as hispânicas nos diversos países onde são exibidas.
Pode-se dizer que a língua é o maior obstáculo, pois são apenas 8 países que, no mundo, falam portugues, enquanto que o espanhol é falado por mais de 20 nações. Só que esse argumento é, em parte, rebatido quando analisa-se o sucesso que a novela Rebelde fez no Brasil, na Romênia, na Croácia, na Sérvia e na Eslovênia, países que falam uma língua diferente da qual a novela foi produzida. Seria possível dizer que o caso dos artistas estrangeiros que trabalham no México acontece porque não há diferenças grandes no sotaque do extranjero. Sem embargo, é notável para um venezuelano o acento de quem vem da Argentina, por exemplo, ou de quem vem da Espanha. Então, um ator brasileiro que trabalhasse em Portugal, não seria muito diferente, ainda que, realmente, a distância fonética do português brasileiro e do português angolano, moçambicano e português (estes três últimos sendo muito próximos NO SOM), seja maior que a do espanhol dos países latinoamericanos entre si e entre a Espanha. Temos um caso famoso no Brasil, o do ator português Ricardo Pereira. Outro ator é o mexicano Chico Diaz. Fora esses não me recordo de nenhum.
O que flui entre os países e vem de fora para o Brasil se dá e é a regra. Contudo, o que flui do Brasil para fora é a exceção quando se fala em modas artísticas, vide os exemplos mencionados. E não se pode dizer que o que explica isso é o subdesenvolvimento da nação canarinho, que "o pobre foi doutrinado a acreditar que o é do rico é melhor" pois o México e a América Central são grandes irradiadores e também são subdesenvolvidos. Está por trás disto o Complexo de Subdesenvolvido do qual o brasileiro sofre. É uma herança ideológica da história deste país. Ao decorrer da colonização portuguesa, se manteve até o 1808 - ano da chegada da família real portuguesa, o Exclusivo Comercial ou Exclusivo Metropolitano, uma medida protecionista de Portugal que restringia o comércio da colonia, de modo a fluir a matéria-prima daqui para Portugal e de lá para cá a manufatura, quase unicamente desta forma. Assim, o que havia de "novidade" era realmente aquilo que chegava de fora, pois a produção industrial brasileira era proibida de acontecer, até por insegurança portuguesa de uma possível concorrência da colônia com a metrópole. Também esta se deu assim como também uma medida protecionista por parte de Portugal. Esta situação se manteria até o século XIX, em 1808 com a abertura dos portos - havendo, então, mais variedade de produtos estrangeiros na terra brasilis e em 1846, quando o primeiro surto industrial do Brasil, comandado por Evangelista de Souza, o Barão de Mauá, despontou. Dessa retrospectiva, ve-se que a História vem a influenciar a construção e funcionamento da cultura brasileira que, por sua vez, ajuda a explicar esse panorama restrito do fluxo internacional musical e televisivo da arte brasileira.
No caso da América Espanhola, a Espanha montara uma estrutura comercial nas colônias que permitia a atuação de outros países da Europa, o que contribuiu para não criar ou não manifestar tão intensamente, por exemplo, o Complexo de Subdesenvolvimento em países como o México. É evidente que o nacionalismo da Argentina e do México tem a ver com a personalidade de seus respectivos povos, a miscigenação pouco expressiva que os caracteriza. Isso contribui para ajudar a irradiar suas culturas, pois elas vêm definidas, o não inferiorizá-las e o lutar para mantê-las.
Vale ressaltar a importância da atuação de Simón Bolívar na luta pela homogeneização da América Latina e, então, implementação de uma única nação. Seu papel ajudou a construir na percepção dos indivíduos latinoamericanos envolvidos a ideia de um conjunto uniforme.
É inegável que forte tradição católica contribui para formar na América Espanhola laços muito fortes entre seus povos; já que são ferrenhamente cristãos. Basta assistir qualquer cena de um melodrama mexicano para ver alguma oração à Virgen de Guadalupe, ou alguma personagem chamada Guadalupe, ou apelidada de Lupita - uma redução de Guadalupe.
A miscigenação histórica dos países latinoamericanos não se deu tão intensamente, isto é, entre muitos povos. Ela ocorreu basicamente, na maior parte dos casos, entre nativos e espanhóis. Isto faz com que haja mais uma homogeneização maior em relação ao Brasil. No caso brasileiro, o qual o escravo teve participação intensa na construção do perfil da identidade brasileira. Além disso, a incorporação da genética de vários povos europeus e dos japoneses a partir do século XIX com as imigrações substitutivas de mão de obra escrava fez com que se criasse no nosso país um perfil muito particular e diferente do de qualquer outro lugar do mundo, o que de certo modo nos isolou culturalmente, principalmente dos outros latinos e, ao mesmo tempo, nos aproximou um pouco de todos (o resto do mundo).
O consumidor da arte gosta de ver que ela está próximo a ele. Esse argumento dá validade aos últimos casos enunciados no intuito de explicar a maior abrangência da cultura hispânica e seus impactos no mundo.
Esta é uma discussão importante, pois envolve a postura dos indivíduos em seu cotidiano, canalizando suas atitudes para a criação de um povo mais autêntico, mais confiante de si e, portanto, mais seguro. Sabe-se que o inseguro é vulnerável. Portanto, ter-se uma nação mais autoconfiante e mais segura é um caminho a constituir um povo menos manipulável e, por conseguinte, menos suscetível a enganações e injustiças sociais.