quinta-feira, 29 de setembro de 2011

A VIDA NA FRONTEIRA: INTRODUÇÃO (Border life: introduction)



A fotossérie "A Vida na Fronteira" é um trabalho fotográfico amador que produzimos (falo em primeira pessoa do plural em função de todo o apoio fornecido por meus pais em relação ao "meu" trabalho) para tentar concretizar a função social da Fotografia e do fotógrafo; mostrar aquilo que deve ser mostrado. Em se tratando da fronteira, causar no observador e no componente da imagem o que parece tanto faltar neste lugar: um mínimo de reação.
Nesta galeria, tentou-se captar aspectos da vida cotidiana de uma camada social expressiva da tríplice fronteira mais populosa da América do Sul, Foz do Iguaçu-Ciudad del Este-Puerto Iguazú - ainda que o destaque seja dado para a fronteira Ciudad del Este-Foz do Iguaçu. A região é ostentada pelas suas belezas naturais e pelo potencial de construção que o homem tem, leia-se a Usina Hidrelétrica de Itaipu. No entanto, graves problemas sociais não ocupam as fotografias tiradas pelos turistas neste lugar, justamente elementos que, além das Cataratas do Iguaçu, o caracterizam muito bem, como, por exemplo, o trabalho infantil.
Sobre aqueles que por esta localidade passam e parecem não ver que algo precisa ser denunciado e, por consequência, modificado, pode-se dizer que é a indiferença dessas pessoas que desfrutam do que há de belo e não se importam com o que "não lhes concerne"? Ou é a alienação que infiltra as mentes dos visitantes, os impedindo de perceber a situação e se engajar?
Vale lembrar que a fronteira não é de todo negativa e alguns pontos positivos também serão levados em conta.

The photoseries "A Vida na Fronteira (The Border Life)" is an amateur photographic material produced by me and my parents (they helped giving support to me, driving me to the places I indicated). This was done in order to materialize the photographer and Photography´s fonction in the society; to show what deserves and has to be showed. In the border, it means to cause a reaction in the observer and in the characters that make part of the photography. Reaction is something that really lacks in that place.
In this photogallery, we have tried to get usual habits and aspects from a social layer so expressive in the most populous frontier from South America. That is the one compound by Foz do Iguaçu, Ciudad del Este and Puerto Iguazú. The region is shown by its natural beauties (Iguassu Falls) and by the men power of building and changing the environment so that it can follow their interests (Itaipu Dam). However, grave problems ravage this region, some elements that are so characteristics as its beauties are, like child work.
Many tourists come to this border, taking advantages from many aspects the place offers, like slow costs and an easy luxury to get access to. Nevertheless, they seem to not see the problematic illnesses the triple Border suffers of. Illnesses that need to be denounced so that all the Brazilian and the world society can see. Could it be the indifference the cause of tourists and "foreign people" "not seeing" those aspects, aspects that don´t have to do with them? Or could it be the alienation the element that governs their minds so that they don´t realize what is in front of their eyes, preventing them to act?
The frontier is not only made by negative aspects and the positive ones will be mentioned to.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

MUROS SOCIAIS: SUJEIRAS PARA DEBAIXO DO TAPETE E DO CINISMO

No televisivo "Café Filosófico", a bailarina Dani Lima defendeu a ideia de que o espaço é a materialização da forma como os indivíduos percebem o mundo. Os muros validam essa formulação quando mostram a concepção de divisão social que está internalizada na mente dos que dividem e dos que são divididos, algo tido como ideal.
Dizer que a divisão social é uma fatalidade, algo que sempre ocorreu e ocorrerá é uma verdadeira ideologia que esconde o fato de que foi o homem quem construiu esse fator da sociedade. Muros como os dad fronteira mexicano-estadounidense ou dos enclaves fortificados ou mais conhecidos como "condomínios de luxo" foram feitos por humanos a mando de alguém ou de "alguéns".
Esses "alguéns" arquitetaram isto por considerá-lo como ideal. Afinal, para Jean-Paul Sartre, os indivíduos tomam atitudes construindo um perfil que onsideram como ideal, fazendo aquilo ue acham, mesmo implicitamente, que qualquer ser humano deveria fazer em seu lugar.
No caso dos muros, a "idealidade" reside no se isolar dos problemas sociais, da violência "lá fora" e, dentre outros fatores, da resolução dos problemas considerados "dos outros", como a marginalização urbano-espacial. Esse quadro é mais evidente com os "condomínios de luxo".
Esse panorama mostra nada mais e nada menos do que um apostura de comodismo à sua zona de conforto, principalmente em se tratando das elites. De fato, a construção de um muro na fronteira da Cisjordânia com Israel "reduziu" o número de de ataques por homens-bomba no lado israelense. Entretanto, a oposição a ele alega que ele concretiza a segregação social e incitá-la ainda mais ao ódio.
Mudando a disposição espacial, a forma de perceber dos indivíduos é forçada a ser alterada. Proibir a construção de muros é uma forma de fazer com que as pessoas da elite se vejam afetadas e obrigadas a um engajamento social, lutando por seus interesses, os quais, no fundo, são os de todos, como, por exemplo, a paz.

sábado, 17 de setembro de 2011

COM O PESSIMISMO, A GRAÇA DE VIVER





Nas décadas que precederam a Revolução Francesa, a crença máxima na Razão como elemento que resolveria os problemas do indivíduo e da sociedade se tornara uma lei na intelectualidade. Essa maneira de ve-la foi uma tendencia que foi gradativamente aguçada com o passar do tempo e do desenvolvimento científico. Mas, no final do século XIX, com a Paz Armada, e primeira metade do século XX, através das duas guerras mundiais, o homem destruiu esse cenário de otimismo, revelando ao mundo que o que determinaria o destino da humanidade não seria o conhecimento e sim o que se faria dele. Foi nessa atmosfera que o Pessimismo atingiu seu ápice e tentar, diante de toda essa realidade, ver o mundo com outros olhos se tornaria um exercício de muita abstração.


Essa forma de ver a realidade continua encontrando muitos argumentos válidos para sua sustentação, como os ataques de 11 de setembro; o possuir armamento nuclear como método de ameaçar outras nações para subordiná-las a seus interesses (uma mostra da vulnerabilidade das relações diplomáticas, levando sempre em conta a impossibilidade de resolução diplomática das divergencias de interesses); uma nova Paz Armada (o Irã que enriquece uranio com o objetivo de varrer Israel do mapa); os islamicos do Al Shebab, que barram a ajuda humanitária que chega até a Somália, enquanto somalis morrem às dezenas e dezenas todos os dias por consequencias da desnutrição; autoridades políticas que sustentam esquemas de tráfico de drogas, prostituição e corrupção; regiões cujo fornecimento de água é "esquecido" - como mostrado no interior do Nordeste, pelo Jornal Nacional da última sexta-feira. No caso da Guerra do Iraque, Estados Unidos atestam para o risco à segurança mundial da existencia de armas nucleares no Iraque, a ONU nega, inspecionando exaustivamente o lugar. Nada é encontrado. Mesmo assim, os EUA priorizam a defesa da "segurança mundial" e invadem a região. Ve-se na ONU um papel de justiça, como aquela que tentou seguir os princípios de criação da ONU. Na verdade, o Iraque vendia petróleo à França, Alemanha e Inglaterra por preços mais baixos e tinha acordos comerciais com estes. Então, cai por terra a defesa da integridade dos princípios das Nações "Unidas". Frente a essa situação, tem-se a ideia de que a verdade é que todos agem por interesse economico e que tudo se compõe essencialmente de fatores negativos.

Nomes de peso como Arthur Schopenhauer e os pensadores da Escola de Frankfurt tendiam a ver a realidade desse modo. Para Schopenhauer, o sentido da vida, por exemplo, não existia, o que, no ser humano, geraria uma angústia, a qual se prolongaria por toda a vida, desencadeando o que hoje é chamado de Depressão. O homem passaria buscando um algo que nunca encontraria. Frankfurt via a mercantilização da cultura como um meio de alienação e disseminação de ideologias, uma visão da realidade tendo ela como tirana, pois um grupo esconderia uma verdade de uma massa, constituindo-se sociologicamente a lacuna, no intuito de convence-la a modificar sua vida em função dos interesses desse grupo, uma extensão da teoria marxista da realidade (A Ideologia Alemã).


Entretanto, ver o mundo dessa forma é reduzi-lo a apenas uma característica. Essa redução foi o que se tentou fazer no início da Filosofia, com o os chamados filósofos pré-socráticos. Ao "se libertar dos mitos", Tales, Anaximandro, Anaxímenes, Heráclito e outros viam a realidade tão diversificada e pensavam que no princípio deveria existir um algo que dava origem a tudo. Foi assim que Tales atribuiu à água o princípio do todo. Anaximandro; o indeterminado. Anaxímenes; os quatro elementos. Demócrito; o átomo. Do ponto de vista da Ciencia contemporanea, estavam quase todos errados, à exceção de Demócrito e Anaxímenes, que mais se aproximam do saber científico atual. Os dois rumaram para origens abstratas, fora do alcance da percepção humana de até então.

Atribuir um fator negativo a tudo é fazer como os mencionados filósofos realizaram, reduzir. Pode-se dizer que o que eles idealizaram era algo palpável demais, relativamente mais fácil de observar, uma criticidade que dá menos trabalho. No caso da realidade, ver a negatividade compreende uma tarefa mais crítica, que requer ver mais além do que os fatos mostram mais superficialmente. Contudo, ver apenas o negativo significa desprezar o que de positivo existe. E, então, vem a pergunta: existe o positivo?

Se for considerado que a realidade é uma só e funciona relativamente da mesma forma, seja no ambito natural quanto no humano, existem os dois elementos. Uma reação química dificilmente acontece numa direção só. Ela geralmente é reversível e, mais do que isso, encontra-se em equilíbrio dinamico, acontecendo, portanto, nos dois sentidos, havendo tanto reagentes, quanto produtos no mesmo espaço. Se feito um paralelo entre os elementos positivos e negativos da vida humana e suas relações sociais e a Química, não é muito diferente. Um indivíduo não é sempre bom. Ele comete atos considerados característicos de uma pessoa ruim, mesmo que por acidente ou intencionalmente, não necessariamente sendo alguém maquiavélico. Um ser humano não diz sempre a verdade. Ele também mente. Se analisada a realidade nesse sentido, tudo está presente em tudo. O mau existe no bom, que existe no mau, que existe numa transição entre os dois, constituindo um terceiro modo. Então, simplificada e matematicamente falando, escolher apenas um deles para caracterizar o todo, é excluir 66,6% do total, o que mostra que a realidade é bem mais do que se escolheu.

Pode-se dizer que, de fato existe o positivo, mas que, segundo a observação da experiencia de vida, tudo tende para o negativo. De qualquer forma, está-se atribuindo uma característica única à realidade (os pré-socráticos, ao tentar faze-lo, falharam), sendo que ela é complexa e ampla, envolvendo vários elementos, como um Equilíbrio Químico. No caso das relações humanas, não levar o que há de positivo em conta, por mais ínfimo que seja, é, de certo modo, desestimulá-lo, ensinando-se (mesmo que implicitamente - o que geralmente ocorre) que aquilo que receberá atenção é sempre o negativo.


Além do mais, o indivíduo corre o risco de internalizar esse princípio, caindo num longo tédio, até mesmo existencial, como dos escritores do "Mal do Século", a segunda fase do Romantismo brasileiro. E é neste ponto que mora o perigo; se ele não está bem consigo, o que é que vai oferecer à sociedade? Habituar-se ao negativo pode levar à inércia social, isto é, ao não fazer nada para mudar a ordem vigente, tendo como justificativa que tudo sempre foi ruim por natureza e sempre será.


Primeiro de tudo, se a postura não faz bem ao indivíduo, o que inviabiliza sua melhor contribuição social, ele deve mudá-la, fazer um esforço para enxergar outras perspectivas. Elas existem. Se ela não inviabiliza a contribuição social, provavelmente é um indício de que está bem dosada. Afinal, realmente tudo pende para um lado, por mais que não caia totalmente neste. No Equilíbrio Químico, em geral, há uma maior quantidade de reagentes ou de produtos, por mais que os dois estejam presentes. Quando ao magnetismo da Terra, diz-se que ela é levemente mais negativa do que positiva, por mais que haja uma enorme quantidade de cargas positivas.

Outro fator a ser levado em conta é que a ideia de que tudo é ruim e sempre será pode ser uma ideologia com o intuito de desestimular os indivíduos a tentarem mudar a disposição da realidade. Cabe ao ser a análise dessa e de outras múltiplas possibilidades. O filósofo Karl Popper sugere em sua Teoria do Conhecimento que o indivíduo ao tentar confirmar uma teoria, deve começar tentando encontrar argumentos que a refutem.

Quanto à inanição, o próprio Schopenhauer enuncia que por mais que a vida seja desprovida de sentido, a pessoa deve ser ética, isto é, fazer o esforço para fazer o bem pela sociedade. Vem a dúvida: que estímulo se tem para fazer o bem quando não se reconhece adequadamente o esforço? Vem a réplica: O que é que se espera ao fazer o bem?


Aquele que se preocupar se a sua visão está mais distante ou próxima da realidade deve levar em conta o conceito de "Coisa Para Nós" do filósofo Emanuel Kant. Para ele, a realidade em si, o numenon, jamais pode ser conhecida, pois extrapola os limites da compreensão humana e de sua experiencia e a razão está limitada ao que a experiencia pode oferecer. A mente do homem seria como um sistema digestório. Tudo que vem de fora para dentro será "digerido" de acordo com as experiencias vividas pela pessoa e sua personalidade, o que não corresponde à totalidade do que existe fora dela. Em uma passagem de "A Cidade e as Serras" ve-se a notável influencia do estilo de vida e da história da pessoa na sua forma de ver o mundo, confirmando o teorizado por Kant: "(...) o bom Schopenhauer formula todo o seu schopenhauerismo, quando é um filósofo sem editor, e um professor sem discípulos (...)". Os escritores da segunda-geração do Romantismo, os do "Mal do Século" tinham vidas fracassadas, vide o que escreveram. O mesmo vale para o otimista compreender até que ponto sua experiencia está obstruindo sua forma de enxergar o todo.


É um fato que a visão que se tem de mundo está fortemente atrelada à experiencia de vida. De qualquer forma, é obrigação do indivíduo analisar no que essa experiencia influencia na sua forma de perceber o total, até onde ela inviabiliza uma percepção mais ampla, que pessoas com outras experiencias foram capazes de perceber. No meio de toda essa busca, Nietzche intervem, perguntando: para que a verdade? Há múltiplas tentativas de resposta. Talvez realmente seja "a verdade" um meio de preencher um vazio provocado pela ausencia de sentido da vida... Ou quiçá, não seja nem ela o preenchimento e, sim, o caminho de chegada até ela. Ela é apenas um momento, um ponto entre a síntese e uma nova tese. É no trajeto que se encontra o fluxo... Que se encontram as transformações da vida. Aderir a ele, é nada mais, portanto, do que simplesmente viver.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

QUANDO UM DIPLOMA PENSA POR MIM






A obra "Triste Fim de Policarpo Quaresma" traz uma arraigada crítica ao Academicismo, prática tão consolidada na sociedade brasileira. Dentro dessa, o poder do conhecimento está nas mãos daquele que é dotado de um título; o próprio diploma. Nas salas de aula, essa postura é evidente, revelando um péssimo "hábito" dos estudantes e, em determinados casos, até mesmo de professores. Isto provavelmente gerará péssimas consequencias para a vida do aluno e da sociedade como um todo.


Em "Policarpo", o personagem que dá título à obra tenta, na primeira parte do livro, entender a realidade brasileira através dos livros, o que vem a fazer com que ele receba críticas por parte da vizinhança pelo fato de esta crer que só pode possuir livros aquele que tem um status acadêmico. É uma realidade que se mostra clara nas escolas. Observa-se que, muitas vezes, as ideias de um aluno são triplamente questionadas pelos alunos do que aquelas apresentadas por um professor. Em muitas discussões entre estudantes sobre as respostas corretas das provas realizadas, anteriores à divulgação de gabaritos, os argumentos apresentados pelo autor deste texto, por mais lógicos que pudessem ser, muitas vezes, eram vistos ainda com uma leve desconfiança, pois sempre se pensa no aluno como alguém que "sabe menos". Ou, em variados casos, nem se presta muita atenção à constituição deles (dos argumentos), já que "o que vale mesmo é a palavra do professor".


Uma vez, o autor deste texto tentava explicar a uma companheira de classe porque a resposta dela não poderia estar certa. A discussão foi longa e ela relutava em aceitar a explicação, apresentando contra-argumentos que não tinham muita conexão em relação ao que ele apresentava, até ignorando o ele que defendia. Ela parecia estar mais interessada em provar que aquilo que ela marcou era o correto, não se atendo à validade do que lhe era apresentado. Entrentanto, provavelmente, se a professora da matéria, ao corrigir a prova, dissesse o mesmo que o aluno dissera, com as mesmas palavras, ela não replicaria uma palavra sequer, como o que efetivamente ocorre na maioria das vezes.


Em outra ocasião, ainda o autor deste texto socializava em sala uma análise de teor psicológico das ações. O professor se voltou para ele e disse: deixa eu te fazer uma pergunta; você lê livros de autoajuda? (causando risos em classe). E, então vem o questionamento: por que primeiramente se pensa que um pensamento "inovador" vindo de um aluno tenha que ser oriundo de algum outro lugar? O aluno não pode pensar por si só analisando as experiências de vida observadas? Ou ainda: por que o que ele pensa não pode vir de um material consistente? Querendo ou não, ou preconceito escapou e se manifestou na pergunta daquele professor.


Nos exemplos abordados, sempre se põe o aluno (desprovido de um título acadêmico) em uma posição inferior à do professor. É evidente que no caso da estudante mencionada, há outros fatores que explicam seu comportamento. Contudo, o orgulho possivelmente é o que essencialmente embasa o pensamento que justifica essa aquela forma de se comportar: como posso aceitar que um aluno possa dizer o que é certo ou o que é errado?


Se levado em conta que a maneira como o espaço está organizado é justamente a percepção de mundo que os indivíduos tem, vê-se na própria postura física das salas de aula a ideologia discutida neste texto. As cadeiras, enfileiradas, estão todas sob uma mesma altura - os estudantes, estão todos no mesmo nível. Àcima dessa altura, de pé - o professor olha de cima para baixo, onde estão os alunos, e os alunos, debaixo (onde estão) para cima, onde está o mestre, na frente de todos. Essa disposição espacial até dificulta que um aluno que esteja na parte traseira do ambiente seja visualizado ao apresentar uma ideia. Ou seja, a manifestação fica espacialmente comprometida.


Essa situação não deixa de ser uma herança dos tempos de ditadura. Afinal, os termos da educação (grade curricular, disciplinas, leitura obrigatória), a forma como estão organizadas as cadeiras e mesas (sistema militar) remontam a esse episódio da História que deixa marcas na atualidade.


A inquestionabilidade está imersa nas formas de convivência de um grupo militar; o dito pelo tenente é e pronto - o que pode ser até uma confusão entre respeito e submissão. Além do mais, matérias como Filosofia e Sociologia, âmbitos em que se costuma questionar os tipos de governo, foram retiradas do curríiculo, acostumando os alunos ao não questionamento. Estes, imersos na educação tecnicista, isto é, aquela que visava formar gente para o mercado de trabalho, tinham que memorizar detalhes como, por exemplo, o nome dos pontos mais altos do Brasil, ou os mais extremos em termos de norte-sul e leste-oeste, de modo a não articular o conhecimento absorvido.


Isso gerou muitas pessoas não donas de seu próprio pensamento. Não deviam questionar nada, afinal, a verdade estava com o governo militar e este sabia o que era melhor para todos - um discurso repleto dos fatores que constituem a ideologia (lacuna, inversão, universalização, abstração e naturalização). Foram essas pessoas que deram origem e criaram a geração atual de jovens, com base nos valores que aprenderam.


A própria história do pensamento como um todo no Brasil reforça essa ideia; a criação de uma faculdade no Brasil aconteceu apenas com a chegada da família real portuguesa, em 1808. Enquanto isso, a UNAM (Universidad Autónoma de México), fora construída em 1551. Isso inviabilizava a construção de um pensar dono do seu próprio pensamento na nação brasileira.


No século XIX, a preguiça como característica principal do brasileiro era um consenso entre todos os viajantes que por aqui passavam na época. Esse modo de ser abarca inclusive o de articular o pensamento, o que requer uma postura ativa, uma atividade, o que, geralmente, os preguiçosos detestam.


Esse quadro acabou criando pessoas passivas diante do conhecimento e, portanto, das situações adversas. Uma professora espanhola uma vez caracterizou ao autor deste texto o perfil do brasileiro como "diplomático por natureza", nas palavras dela. Debater e questionar são tarefas que envolvem divergências, desconstruções e, portanto, um conflito. Como o brasileiro evita ao máximo o conflito - inicialmente, um povo acostumado a compor a periferia (leia-se a periferia econômica como uma economia complementar à de Portugal) e lidar com as adversidades da vida com base na malandragem*, evitando a briga, ele acaba por tentar sempre se distanciar de tarefas afins. A concepção de por em xeque o argumento de um acadêmico está geralmente atrelado a desprezar tudo que ele pesquisou, elaborou... É entendida até como uma própria objeção à pessoa dele.


Não obstante, por mais influente que seja a história e a construção da cultura nas ações de uma pessoa, os indivíduos também são responsáveis por suas atitudes. Pensar é uma atitude e fica a cargo desses indivíduos tentar exercê-la ou não. Se isto não for feito, a manutenção da ordem vigente será realmente um destino para sempre. Isto é, se não se é dono do próprio pensamento, alguém será... Desse modo, uma massa de manobra sempre será uma realidade; um grupo manipulável de pessoas.


É a postura não questionadora que leva, por exemplo, dentre outros fatores, a anos de repressão governamental, a uma corrupção generalizada, a uma enganação constante, até a uma situação de infelicidade. Todos os aspectos por uma percepção afetada por parte dos indivíduos, os quais acabam se tornando distraídos demais.


É por ela que os brasileiros não são engajados socialmente, logo, são roubados todos os dias e se manifestam a respeito.


Para mudar essa situação é preciso primeiro que se deixe a preguiça tanto mental quanto física de lado, o que requer vontade do indivíduo. Sem vontade, nada feito. O estímulo da sociedade é fundamental, principalmente pela instituição escolar, uma dos mais importantes. No momento reservado para análises, o professor deve lançar mais questionamentos do que verdades, visando a estimular a resposta do aluno, ajudando-o a embasar sua resposta com base na articulação do que ele sabe e do que outros companheiros sabem também e apresentar outras informações que possam descontruir essa ideia, mas nunca antepondo sua visão sobre a ideia em questão de modo a subordinar as respostas dos alunos a ela ou tentar adequá-las a ela... Podendo renovar também seu próprio pensar.


Exames com questões que exijam o pensar um pouco mais, como os da FUVEST, por exemplo, e temas abstratos e provocadores como os da UEL; propagandas televisivas como as do Futura e o hábito de lançar questionamentos aos finais de emissões televisivas são fatos e medidas factíveis que contribuem para a transformação social, pois mudam a percepção dos indivíduos e provavelmente, por consequência, suas ações. Enfim, cabe à cada setor estimular a saída da menoridade enunciada por Imanuel Kant, ou seja, a postura passiva diante do saber e do agir, de modo a motivar a pensar sempre, a não se contentar com o que se sabe. Porém, é preciso frisar que se não houver vontade de sair da caverna, permanecer-se-á nela por muito tempo... Sem ter direito de culpar a ninguém por isso.




*Não se está justificando a postura brasileira diante dos fatos