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Crucificação. Émile Nolde. 1912. |
Final de ano é época de acontecimento dos principais concursos públicos através dos quais muitos estudantes são submetidos para ingressar nas universidades brasileiras, o sistema vestibular. Instituído a partir da ditadura militar, ele é dotado de uma série de vantagens e benefícios que podem determinar o rumo da vida de um estudante e ajudar a construir um grande cidadão. No entanto, é bem possível que seus aspectos negativos, por mais que em menor número, superem todos os positivos.
Ansiedade talvez seja a palavra que defina essa fase da vida de muitos estudantes. Afinal, os resultados, na maior parte dos casos, demoram muito para ser divulgados, chegando a levar até 3 meses depois das provas para sua divulgação. É o caso, por exemplo, das públicas de São Paulo, da UEL e do ENEM.
Lidar bem com essa sensação no mundo globalizado contemporâneo é de vital importância para manter um nível estável de equilíbrio psicológico e social, dadas as pressões da família, da escola, do trabalho, da universidade, do parceiro amoroso, etc. Assim, o vestibulando já está sendo acostumado a trabalhar com ela desde cedo.
Além do mais, disciplinas como a matemática dão lições que são úteis para toda a vida, como a de que para atingir o êxito, não há outro caminho senão o esforço. É nesta concepção que embarca o vestibular, refletindo algumas concepções capitalistas como, por exemplo, a meritocracia. Isto é, há um número determinado de vagas e conquistarão as vagas os estudantes que merecerem-nas. É um reflexo da vida, pois a vida compõe o sistema capitalista. A princípio o discurso parece muito são. O problema é que o ensino gratuito foi uma conquista da Revolução Francesa e esta lançou a ideia de que este deveria ser um direito de todos, o que não condiz com a realidade atual brasileira, em que "só os sete melhores poderão cursar Medicina na universidade tal". Como dizer que outros candidatos muito bons, que desenvolveram uma série de habilidades, não têm direito de cursar seu sonho naquela instituição?
É um verdadeiro absurdo o ponto a que chegam os estudantes. Eles vão ao ponto de desejar que os concorrentes vão mal, ou faltem, para que conquistem suas respectivas vagas. Então, poder-se-ia dizer: ué? Na vida será assim, alguns conquistarão seus objetivos e outros não. No entanto, como pode alguém desejar que o outro não exerça sua cidadania através de um direito que é o de estudar? Desse modo, o sistema vestibular está incrustrando nas "futuras" gerações o valor do egoísmo, associado ao individualismo do sistema capitalista. É a banalização de uma injustiça.
Injustiça porque, anteriormente à instituição desse modo de seleção proposto pelo governo Costa e Silva, era estabelecida uma nota à qual, em determinado curso, os estudantes deveriam chegar ou superar. Se 200 estudantes o fizessem e só houvesse 50 vagas, outras 150 vagas teriam que ser criadas. Como tal, a busca pela excelência acontecia do mesmo modo, em detrimento do que ocorre na atualidade, em que, talvez no lugar de buscar a excelência, na verdade, busque-se ser o melhor.
O vestibular, com a lembrança de que no mundo existe uma enorme concorrência, acaba não transmitindo ao ensino brasileiro sua essência em todos os cursos. Uma série de habilidades têm que ser desenvolvidas para conquistar uma vaga em Direito, o que não é tão necessário para fazê-lo em relação ao curso de Pedagogia. Dessa forma, está-se acostumando os estudantes a ver com preconceito determinadas áreas do conhecimento, dado que todas elas são igualmente importantes. E então, vem a reflexão: como se pode falar em desenvolvimento num país em que desde o início da carreira acadêmica, os futuros professores são vistos com preconceito e tem seu potencial subexplorado? A tarefa da educação fica em segundo plano de concorrência, de habilidades e de perspectivas. Assim, igualdade social ou redução da desigualdade social parece ser prolongadamente um tema utópico.
Sobre o grau de exclusão que ele abarca, não há dúvidas de que é mesmo a elite ou uma parte muito pequena dos estudantes que recebe um verdadeiro incentivo no mundo do estudo... Estudantes de escolas públicas dificilmente serão aprovados... Muitos serão desclassificados, já que o foco da educação naquele lugar é outro, entende o próprio vestibular como algo que não faz parte de sua realidade. É uma mistura de concepções sociais e pessoais de educação. Foi em meio a à "descoberta" dessa situação, de que o aluno da escola pública nem cogitava estudar um dia na USP, que esta universidade decidiu implantar o INCLUSP, um programa que visa à inclusão social dando um bônus de nota aos alunos que vêm do ensino gratuito. Dessa forma, estar-se-á aproximando aquele da concepção de uma universidade de peso, como a Universidade de São Paulo. Talvez assim, uma mudança aconteça a passos lentos, mas muito lentos, partindo do trabalho de alguns professores que, na verdade, já faziam, de certa forma, esse trabalho. É então que se vê nas cotas e nos bônus a tentativa de compensar essa discrepância social. Vê-se na política uma certa indisposição em disponibilizar verbas para o aumento de vagas. Na Estadual de Ponta Grossa, em Jornalismo de concorrência universal (o termo é engraçado pois dá a impressão de que os cotistas não fazem parte do universo), há apenas 9 vagas. Em Medicina, há 7.
Extinguir o sistema vestibular é visto por muitos como algo radical. Mas, na Argentina ele não existe. Basta ter RG e ter concluído o ensino médio para iniciar o superior. Não é por isso que sua qualidade seja inferior, dado que a Universidad de Buenos Aires é uma das melhores da América Latina. Pode-se dizer que haveria um desperdício muito grande frente ao provável grande número de desistências que ocorreriam ao longo do curso, já que um número grande de vagas teria sido criado, quando mais tarde elas foram desocupadas. Porém, seria correto chamar assim, de "desperdício", oferecer um direito de forma mais ampla? Seria o preço a se pagar pela democracia.
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