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Quadro "Baile de salón". Crédito: www.eltriunfo.com.mx |
Qualquer um poderia dizer que o reggaeton é na América espanhola o que o funk é no Brasil, o que pode ser um terrível engano. Trata-se de um estilo musical que, sim, evoca a sensualidade, entretanto sempre retrata uma situação amorosa. Notam-se músicas que têm uma história romântica, tematizando o conquista e, algumas vezes, das desilusões amorosas. São composições em que o carinho e as carícias estão presentes. Muito diferente disso é o funk brasileiro. Sua temática é ocupada quase unicamente pelo sexo, pelas descrições dos movimentos sexuais...
Ambos os ritmos são muito populares nos lugares onde tocam. Contudo, seria cada um um reflexo do povo que representam? Seria possível dizer que eles representam seus povos? Se levado em conta que o ser humano tende a gostar do que lhe é mais parecido, pois assim lida com as mesmas concepções que as suas e, portanto, não é contrariado, pode ser que sim. E seria o hispanoamericano um indivíduo mais romântico e o brasileiro mais sexualizado?
Ainda dentro da música, se analisadas as canções pop que fazem sucesso na América espanhola, ver-se-á que as letras sempre apresentam um teor poético, independentemente de sua qualidade ou conteúdo. Exemplos são os de várias canções da cantora Anahí, de Belinda ou do extinto grupo Kudai. O brasileiro encara as músicas de outro jeito, o que é observável em letras como "e ela já faz faculdade e eu aqui, aprendendo a dirigir...", trecho de "Menina Estranha" da banda Restart, ou "mas eu te peço só um pouquinho de paciência, a cama tá quebrada e não tem cobertor", trecho do novo single do cantor Michel Teló, "Humilde Residência". São palavras que destoam de contextos musicais românticos e apontam para o fato de o brasileiro não estar muito interessado em letras românticas ou "bonitas", dentro de uma visão clássica ou idealizada daquilo que é belo.
Músicas, como produtos, falam daquilo que o cliente quer ouvir. Na América espanhola, o Romantismo ainda está presente nas telenovelas, outro sinal de que o que o latino quer é o idealismo romântico. No Brasil, as novelas, como as músicas, também incorporaram e até demais o sexo (produções que incentivam o uso de camisinha, cenas em que os corpos ficam quase totalmente nus ou à mostra). Isso reforça a ideia de que o que os latinoamericanos ouvem está muito próximo do que são. Não é segredo pra ninguém que o brasileiro adora falar de sexo... E as músicas vêm, portanto, como um reflexo desse cotidiano e desse hábito. Segundo a sexóloga Carmita Abdo, brasileiros falam muito de sexo, entretanto, na verdade, fazem pouco. Uma outra especulação para a causa desse "sexualismo musical" seria que a música é a oportunidade para dar vazão àquilo que as pessoas não estão tendo, mas estão desejando.
O Brasil viveu algo único no mundo, uma miscigenação de dezenas e dezenas de etnias diferentes. Talvez seja um fator que ao longo de sua história veio mudando suas percepções de sexo. Foi uma chance para preparar futuramente mudanças na sua maneria de viver e de pensar. O teatro das cocottes, das vedetes e a Revolução Sexual dos anos 60 colocaram o Brasil numa posição mais liberal quanto ao sexo. A América espanhola ainda tem mais pudores, tem uma cultura católica mais arraigada. Os dois já foram muito parecidos no tema "pudor". Com a modernidade, seus estilos musicais se reinventaram. E a arte vista como oportunidade para dar vazão às emoções humanas se manifesta para mostrar o que quer cada povo. Portanto, pelo funk, dá pra ver que o brasileiro quer sim mais sexo. Pelo reggaeton, dá pra ver que o hispanoamericano quer romantismo, mas jamais sem aquela pitadinha "caliente" da América, de um espírito tropical sensual que unifica todos os povos que vivem na América Latina.