sábado, 17 de março de 2012

OUVIDOS QUE SENTEM O CORPO

Quadro "Baile de salón". Crédito: www.eltriunfo.com.mx
"Si no le contesto se desespera / piensa que con otra estoy / haciendo lo que hacia a ella, ea ea ea (se não a respondo, se despera / pensa que estou com outra / fazendo o que fazia com ela)" é como começa uma das músicas de maior sucesso de um ritmo que, da última década pra cá, envolveu a América latina quase inteira; o reggaeton. Nas festas, danças sensuais quase nunca se contrapõem a um toque de romantismo das letras; elas o complementam.
Qualquer um poderia dizer que o reggaeton é na América espanhola o que o funk é no Brasil, o que pode ser um terrível engano. Trata-se de um estilo musical que, sim, evoca a sensualidade, entretanto sempre retrata uma situação amorosa. Notam-se músicas que têm uma história romântica, tematizando o conquista e, algumas vezes, das desilusões amorosas. São composições em que o carinho e as carícias estão presentes. Muito diferente disso é o funk brasileiro. Sua temática é ocupada quase unicamente pelo sexo, pelas descrições dos movimentos sexuais...
Ambos os ritmos são muito populares nos lugares onde tocam. Contudo, seria cada um um reflexo do povo que representam? Seria possível dizer que eles representam seus povos? Se levado em conta que o ser humano tende a gostar do que lhe é mais parecido, pois assim lida com as mesmas concepções que as suas e, portanto, não é contrariado, pode ser que sim. E seria o hispanoamericano um indivíduo mais romântico e o brasileiro mais sexualizado?
Ainda dentro da música, se analisadas as canções pop que fazem sucesso na América espanhola, ver-se-á que as letras sempre apresentam um teor poético, independentemente de sua qualidade ou conteúdo. Exemplos são os de várias canções da cantora Anahí, de Belinda ou do extinto grupo Kudai. O brasileiro encara as músicas de outro jeito, o que é observável em letras como "e elafaz faculdade e eu aqui, aprendendo a dirigir...", trecho de "Menina Estranha" da banda Restart, ou "mas eu te peço só um pouquinho de paciência, a cama tá quebrada e não tem cobertor", trecho do novo single do cantor Michel Teló, "Humilde Residência". São palavras que destoam de contextos musicais românticos e apontam para o fato de o brasileiro não estar muito interessado em letras românticas ou "bonitas", dentro de uma visão clássica ou idealizada daquilo que é belo.
Músicas, como produtos, falam daquilo que o cliente quer ouvir. Na América espanhola, o Romantismo ainda está presente nas telenovelas, outro sinal de que o que o latino quer é o idealismo romântico. No Brasil, as novelas, como as músicas, também incorporaram e até demais o sexo (produções que incentivam o uso de camisinha, cenas em que os corpos ficam quase totalmente nus ou à mostra). Isso reforça a ideia de que o que os latinoamericanos ouvem está muito próximo do que são. Não é segredo pra ninguém que o brasileiro adora falar de sexo... E as músicas vêm, portanto, como um reflexo desse cotidiano e desse hábito. Segundo a sexóloga Carmita Abdo, brasileiros falam muito de sexo, entretanto, na verdade, fazem pouco. Uma outra especulação para a causa desse "sexualismo musical" seria que a música é a oportunidade para dar vazão àquilo que as pessoas não estão tendo, mas estão desejando.
O Brasil viveu algo único no mundo, uma miscigenação de dezenas e dezenas de etnias diferentes. Talvez seja um fator que ao longo de sua história veio mudando suas percepções de sexo. Foi uma chance para preparar futuramente mudanças na sua maneria de viver e de pensar. O teatro das cocottes, das vedetes e a Revolução Sexual dos anos 60 colocaram o Brasil numa posição mais liberal quanto ao sexo. A América espanhola ainda tem mais pudores, tem uma cultura católica mais arraigada. Os dois já foram muito parecidos no tema "pudor". Com a modernidade, seus estilos musicais se reinventaram. E a arte vista como oportunidade para dar vazão às emoções humanas se manifesta para mostrar o que quer cada povo. Portanto, pelo funk, dá pra ver que o brasileiro quer sim mais sexo. Pelo reggaeton, dá pra ver que o hispanoamericano quer romantismo, mas jamais sem aquela pitadinha "caliente" da América, de um espírito tropical sensual que unifica todos os povos que vivem na América Latina.

quinta-feira, 8 de março de 2012

DAMA DE FERRO: QUANDO A SOCIEDADE PODA UMA FLOR (Iron Lady: when the flowers are cut by societies)

Meryl Streep em "A Dama de Ferro". DIVULGAÇÃO. Crédito: www.modaspot.abril.com.br.
Oito de março, Dia Internacional da Mulher. Trata-se de um dia em que, como qualquer outro, devemos falar daqueles que serviram como modelos em quem se espelhar na sociedade. "A Dama de Ferro" é um bom exemplo disso. O filme traz uma abordagem da solidão e dos desafios enfrentados por Margaret Thatcher vividos no antes, durante e no pós-governo, além de uma série de outras reflexões sobre a humanidade.
Uma delas é o grau de descartabilidade do ser humano na sociedade atual. A partir do momento em que alianças políticas com ela foram desfeitas, ela saiu do poder e não voltou mais, em quase todos os sentidos. Desde 1990, ela é vista em público com uma frequência cada vez menor e encontra-se, segundo o que a imprensa diz sobre seu atual estado de saúde mental, num momento de demência. A sociedade descarta alguém e os impactos dessa medida são desconsiderados. O filme mostra uma angústia e uma depressão da protagonista por um dia ter sido "tudo" e, de repente, não ser mais nada... Ou pior, ser um "incômodo" para os outros.
Em uma das cenas, ela diz à filha "você precisa ocupar mais a sua mente... Na sua idade, a última coisa que eu queria era me preocupar com meus pais". Em outra cena, quando aconselhada pelo governo americano a irrelevar o caso das Malvinas e ao ser subestimada por ele, ela diz: "estive em batalha em cada dia de minha vida". São essas e outras frases que revelam o grande referencial em que se constitui essa mulher.
É interessante observar uma cena, essa em que é aconselhada pelo governo americano a não seguir com a questão das Falklands, a antítese transitória do papel da mulher. Primeiro, ela o desafia com suas palavras e, logo em seguida, com a classe que é esperada da mulher, o serve com café e chá com leite.
Num país desenvolvido, palco de revoluções que mudaram o curso da história ocidental e mundial, foi só no final do século passado (1979 a 1990) que ela chegou ao poder. Contudo, ainda foi a única mulher a ocupar o cargo que ocupou. E o filme mostra toda a fibra e força dessa personagem histórica no engajamento político quando ela ainda era jovem, quando conseguiu uma vaga em Oxford (uma mulher ligada à educação de altíssimo nível em meados do século XX). Ele consegue transmitir essa ânsia e a decepção pelo preconceito do olhar masculino daquela sociedade frente à participação da mulher na política.
Porém, a produção peca em entretenimento. A solidão em que vive Thatcher na atualidade, a depressão e esquizofrenia de sua existência atual, acabam cansando o espectador. Talvez seja um reflexo assertivo da monotonia em que ela vive.
Talvez seja o objetivo da produção fazer o espectador sentir um pouco do que Margaret sente e, quem sabe, o que todos os descartados vivenciam. Nessa linha, a função social dessa obra é concluída. Tanto no sentido artístico, o de catarse, o de fazer o observador sentir algo, de provocá-lo, quanto no estímulo social, para repensar o papel da mulher, repensar os valores da sociedade, discutir se são e se somos tão modernos assim (a mulher não voltou a ocupar o poder no Reino Unido, mas a tendência se voltou para a América do Sul, leia-se a Argentina), denunciar a descartabilidade das pessoas e, dentre outros fatores, a coisificação do homem.

March 8th, the Woman International Day. It is a day, as any other, we ought to talk about those people who was and are examples to the world. "Iron Lady" is a good example of this. The movie brings a solitude vision e the challenges faced by Margaret Thatcher before, during and after her government as prime-minister, beyond many other reflections about the humanity.
One of them is the disposability that characterizes the human being nowadays. From the moment the political alliances with Thatcher were broken, until now, she has never come back to the power - we should consider all possible senses to the word "power". Since 1990, she rarely has been seen in public. What does the press say about her mental state? She is sick. The society discards somebody and the impacts from that attitude are disconsidered. The film shows the anguish and the depression faced by Margaret because of the fact of one day being everything and today being "nothing"... Worse than this, the sensation that comes is that one that make you feel unuseful.
In one of the scenes, she says to her daughter "you need to occupy your mind... When I was your age, the last thing that I wanted is to mind about my parents". In other scene, when she is advised by the American government to ignore the Falklands case and after being underestimated by him, she says: "I have been in battle every single day of my life". These and other phrases reveal the big reference that this woman constitues.
In this last part mentioned, there is also another interesting thing. After challenging the American government with her words, breaking what is expected from a woman, she asks him, the way the society wants women to behave, about what he would like to drink, a coffe or a milk tea. It reflects the antithesis and the transitory woman she compounded in relation to the social patterns of that time.
In a developped country, scenary of revolutions that changed the western and global history, just in the end of the twentieth century (from 1979 to 1990) a woman reached the power. But, the trend did not go on and Margaret was the only one. The movie shows all this power and excitation to change, to act, bringing her beginning on political engagement, when she was a young woman that had gotten to study at Oxford (a woman connected to education of high level in the half of twentieth century). This production gets to transmit this desire of action and the deception felt related to judgements from a social male vision.
However, the film may be out of point on entertainment. The solitude in which Thatcher lives nowadays, a depression and a schizophrenia from her actual existance, get the spectator tired. Maybe, it is a right reflection about the monotony she lives in.
Perhaps this is the production objetive, to make the viewer feel a little bit about what she faces, she feels and thinks... In order to make us think a little bit about disposability and what feel those ones who are discarded. This way, the social function from this film is achieved. In the artistic sense, the catharsis, to provoke a reaction, and in the social sense; the motivation to rethink the woman patterns, the social values, to discuss how modern we are (the woman has never come back to power in the United Kingdom, but they did it and do it in the South America - look at Argentina), to denounce the people disposability and, among many other factors, the transformation of the man in a vehicle to achieve his/her interests, as it was a thing are other points concluded.